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sexta-feira, 16 de março de 2012

1x02 - Oi Vó... Oi Ditinho...

Montagem com foto de Márcia Nicolau
A cidade é repleta de prosas e quem as conta são seus próprios moradores que não perdem a oportunidade de contar um “causo”. Como no caso da saga dos três irmãos, o amor proibido e traição que terminou em punição dos Deuses, a petrificação. Surgem daí as pedras do Baú, Bauzinho e Ana Chata, principais cartões-postais da cidade. Tem a história da sua colonização, na qual os imigrantes europeus, na rota dos Bandeirantes, passaram pelo local e se encantaram com o clima e as paisagens, que em muito lembravam a terra de origem. Ali eles permaneceram e fundaram um pequeno povoado. Outras histórias estão relacionadas à religiosidade do seu povo, a doação de terras para a construção de uma capela para o santo milagreiro São Bento. Tem também os filhos ilustres da terra como Miguel Reale; político, jurista e filósofo mundialmente conhecido e Plinio Salgado; político e escritor. Histórias não faltam no repertório do seu povo, mas as histórias que nos marcam é a da luta dos lavradores que extraíram da terra fértil o sustento diário, dos pecuaristas, das mulheres que cuidavam dos alimentos da casa e da educação dos filhos e nesse ciclo social de trocas e cuidados, formou-se uma cultura peculiar: a da simplicidade.

Em meio à luta do povo, nasceu um menino e ele já nasceu fazendo história. Filho mais novo, quando seu pai foi registrá-lo, o dono do cartório disse: “O senhor não acha que tem muito nome Joana na sua família? Vamos dar a esse menino um nome forte.” O pai concordou e ele foi registrado como Benedito da Silva Santos. Mas quando chegou em casa, sua mãe olhou pra ele e disse: “Esse é meu Ditinho Joana!” E o nome de Benedito da Silva Santos acabou ficando somente no documento da certidão de nascimento.
Dizem as lendas, e hoje a ciência comprova, que na infância as habilidades naturais se revelam naturalmente. Um garoto risonho, brincalhão, que vivia cantando e contando piadas. Extremamente amoroso sempre se preocupou em cuidar do pai e da mãe, e desde menino passou a ajudar o pai no trabalho da roça. Quando o pai se acidentou, os irmãos eram casados, ele não pensou duas vezes e disse. “Antes eu trabalhava para ajudar o senhor, agora vou trabalhar para cuidar do senhor.” E assim ele fez. “Eu não gostava de trabalhar na roça não, mas sabia que aquilo ia diminuir o sofrimento e a preocupação do meu pai.”
A vida era bem dura, mas ele nunca deixou que isso afetasse a pureza do seu coração. A maior alegria era sentar, ouvir os “causos”, brincar com seus amigos. Brincadeiras simples de menino da roça, mas no rosto a expressão de felicidade.

Foi bem assim que uma pequena história me comoveu
O menino havia jantado na casa da sua vó, por que o “lodinho” era a comida mais gostosa do mundo.
Caiu a noite, tudo escuro, moravam na roça, ele precisava voltar para casa, mas tinha medo e seis anos de idade.
A vó não podia leva-lo e disse para o neto:
- Você vai andando e falando oi, sem olhar para trás, que fico aqui te escutando.
_ Oi Vó.
- Oi Ditinho
- Oi Vó
- Oi Ditinho
A quantidade de “oi” se espichava, fazendo com que a vó estivesse sempre por perto e amparado por essa presença, o menino chegou em casa.
Esse menino é Ditinho Joana, que hoje através de uma singular arte e sábias palavras nos mostra, contando histórias e suas miudezas, os caminhos menos ásperos, mesmo que a gente acredite que já chegamos no fim da picada.
História popular de São Bento do Sapucaí – Registrada no ateliê do escultor

Pedra do Bau - Montagem com foto de Márcia Nicolau


Márcia Nicolau

Um comentário:

  1. Seu site está lindo, e as histórias... tocantes, que preserve esse espaço tão aconchegante para nosso tour mental relaxante

    Parabéns, parabéns, Marcinha.

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