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segunda-feira, 19 de março de 2012

1x05 - Levar sem ir...


Caminhar pelas ruas do bairro Quilombo é presenciar o capricho dos seus moradores. Tudo ali tem pigmentos de arte, desde as flores dos jardins, nos bancos em frente às casas, na fala mansa do seu povo a prosear.  No meio desse cenário, observamos uma casinha toda esculpida em madeira.  Ao primeiro olhar, já dá para sentir um toque de mágica. A lembrança das casas de contos de fadas e que no seu interior reside um ser encantado.

Trata-se do ateliê de Ditinho e ele realmente carrega consigo a arte do encantamento.
Ao entrar, o visitante é tomado de um efeito quase mágico que acontece diante de seus olhos, as esculturas são tão vívidas que se olharmos com mais atenção, parece que se mexem e interagem nas falas do seu criador.
Em sua definição, não são esculturas, são momentos vividos, mas tão bem vividos, que precisavam ser eternizados.  Ao entrar, o carretel de histórias vai se desenrolando e as imagens vão sendo criadas na imaginação.
Aos poucos, vamos nos envolvendo e formando, sem querer, uma ladainha de “causos”, pois um puxa outro e abre a licença poética, para que outro se apresente. Nesse vai e vêm, as horas passam e o tempo se confunde com o tempo das preciosidades de Ditinho.
Seu pai realmente tinha razão, ele passou a viver de suas histórias e de suas esculturas. Com a exibição do trabalho na mídia, aumentaram os visitantes na cidade a procura de seu trabalho. Colecionadores de várias localidades vinham em busca de levar consigo uma de suas obras. “Geralmente, eles chegam aqui e se identificam tanto com a peça, que não querem mais desgrudar daquele sentimento que os uniu. Muitas vezes, há uma afinidade da minha história com a sua história pessoal. Parece que brota dentro da pessoa aquele sentimento bom. Já teve cliente que pediu para que eu fizesse a escultura dele sendo carregado pelo pai. Muitos choram de saudades dos entes queridos e assim vamos trocando esses sentimentos. Essa é a minha maior riqueza!”
E foi assim que as histórias e as esculturas de Ditinho Joana embarcaram para o mundo. Hoje, em países como Itália, Alemanha e França suas obras já podem ser encontradas. São turistas que vem conhecer a cidade e acabam se encantando pelo trabalho de Ditinho e levam para seu países de origem ou presenteiam seus amigos. “Um dia estava comentando com um cliente aqui no ateliê sobre o destino das minhas obras e uma senhora chegou e endossou o que eu estava dizendo, pois viu uma “botinha” minha na Suíça”.
Quando questionado sobre o segredo do seu sucesso, ele não titubeia em responder que sua maior alegria é poder registar o que o homem do campo não teve a oportunidade de ver. “Esse amor pelo meu povo, mostrar por meio das minhas obras como é o meu trabalho, como eles se manifestavam diante dos sentimentos. O grande segredo é fazer com amor aquilo que a gente mais gosta.”
E essa alegria está contida não somente em suas obras, mas também em seu sorriso, na simplicidade com que encara a vida e recebe cada pessoa em sua casa, pessoas vindas de vários cantos do mundo e que saem dali como um novo amigo. Sobre o sucesso, a valorização do seu trabalho, as suas condições de vida, ele é muito enfático: “Não mudou nada em minha vida, o que realmente mudou é que eu ganhei mais amigos. Eu sou o mesmo Ditinho Joana, sempre!”.
E de tempo em tempo um novo pedaço de tronco se transforma em história, para encher os olhos pela beleza e detalhes de cada figura esculpida, mas também pela carga emocional adicionada a ela, o que faz com que ganhem vida na imaginação de quem às vê e tem o prazer de escutar Ditinho, com sua fala mansa, contar as suas aventuras.

A botinha representa nossa caminhada na vida,
subi e desci, andei depressa e devagar.
Cansei e descansei, entristeci e me alegrei,
e assim sempre caminhei.
Hoje estou gasta e cheia de marcas,
mas com certeza, valeu a pena.

Ditinho Joana



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