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domingo, 18 de março de 2012

1x04 - Sorte



Duas realidades cercavam a vida de Ditinho Joana, as histórias ouvidas e as esculturas que produzia. Mais do que nunca, a passagem do tempo ia mudando a rotina dos moradores. Os turistas chegavam à cidade em número cada vez maior e os moradores viam a necessidade de criar estruturas para melhor recebê-los, assim foram nascendo as pousadas, os artesanatos passaram a ser mais procurados e pessoas de vários lugares vinham em busca de inspiração na pequena cidade cravada na Serra da Mantiqueira.
Ditinho agora era um homem, que mantinha o sustento dos pais com o trabalho na roça e nas horas vagas dedicava-se mais do que nunca as suas criações.  Os troncos iam se transformando em personagens, cenas de histórias, as imagens em sua mente eram completamente registradas. Com uma delicadeza primorosa ia lapidando os detalhes do olho, da face, dos cabelos. Aos poucos a madeira ia ganhando vida e expressão e ele pensava em sua vida. “Ditinho você não casou até agora? Ih, esse não casa mais não!” A provocação do homem justamente em um enterro deixou Ditinho muito intrigado.

“Rapaz aquilo me deixou muito bravo. Tem uma lenda aqui na minha terra que pra casar você tem que cortar um pé de manacá, aquela árvore linda, florida. Não pensei duas vezes, cheguei em casa, peguei o machado, e decepei o manacá. Não ia aguentar provocação não! Voltei, sentei no sofá e minha mãe só olhando. Ela não entendeu nada, ficou quietinha! Mas não é que em pouco tempo depois eu tava casado. Eita pé de manacá poderoso.”
E não é que ele casou, teve filho e ficou viúvo na mesma velocidade. Mas Ditinho não deixava que nada abalasse seu bom humor e felicidade. Logo em seguida casou-se com a cunhada e teve outros filhos. “Tudo pode se transformar em uma boa história”
Mas a situação financeira se complicou e ele ameaçou deixar a cidade para trabalhar na capital e ganhar mais para o sustento de toda a família. Foi quando o pai de Ditinho se pronunciou, quase como uma previsão. “Meu filho, não adianta ir para lugar nenhum, sua vida é aqui, e sua vida é contar as suas histórias. Um dia você vai ganhar sua vida com o seu talento.”
E foi assim que Ditinho se encontrou com Laercio Cardoso de Carvalho, que se surpreendeu com suas peças e começou a divulgar seu trabalho. Algum tempo depois, Ditinho foi a capital e lá, por um acaso, encontrou-se com o artista Pietro Maria Bardi, que ficou admirado com seu material. “Imaginem vocês, Pietro Maria Bardi elogiando meu trabalho. Isso foi um grande presente na minha vida. Se ele, um artista talentoso, reconhecido mundialmente, elogiou meu trabalho, eu não tinha como não acreditar.” Algumas semanas depois Ditinho fez sua primeira exposição na cidade de São Paulo e apareceu em rede nacional em um programa de televisão mostrando suas obras.
“O Brasil passou a conhecer o meu trabalho e isso foi muito gratificante, pois nunca me interessei pela fama ou o sucesso, e sim retratar a história do meu povo. O sonho estava se tornando realidade.”

Márcia Nicolau

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