Páginas

domingo, 1 de abril de 2012

3x02 - Brincando com as palavras


“Um lugar em São Paulo  que eu fecho os olhos e viajo no tempo é o Museu do Ipiranga” – assim Cida inicia seu passeio pela infância. Ela fala de pessoas marcantes como sua avó, que sempre  a levava junto com o irmão ao museu, e lá ia contando estórias da época do  Brasil Império e a saga dos escravos e sua luta pela libertação. “Nunca soubemos se era verdade ou mentira o que ela nos contava, pois ela afirmava que nós éramos descendentes da realeza, e devíamos conhecer os costumes dos antepassados.”

Verdades ou não, a realeza se instalou na pele da menina e a parte que mais lhe chamava a atenção era a possibilidade de fazer as pessoas mais felizes. “Essa relação com as palavras aflorou já na infância. Lembro-me de uma amiga, amizade que eu cultivei por toda vida, que sempre corria para minha casa após a briga entre os pais. Quando ela entrava no portão, já corria para meus braços, pois sabia que iríamos conversar e ela retornaria para casa mais aliviada. Uma felicidade inexplicável tomava conta do meu ser. Imaginava se elas também podiam sentir aquela sensação maravilhosa.”
Foram essas conversas, bate-papo com as pessoas que ela foi criando um círculo muito grande de amigos, que sempre tinham em Cida uma pessoa em quem podia-se confiar.
A juventude na década de 60 era mais unida, embora existisse tabus e conceitos muito bem estabelecidos, os bailes eram sempre o ponto de encontro dos jovens. Fim de semana era dia de dançar, encontrar os amigos e se divertir. Todas as paqueras aconteciam nesses encontros, onde um amigo apresenta outro amigo, e o motivo para se aproximar era o convite para uma dança. A obrigação de todo jovem era aprender a dançar e o cenário musical da São Paulo antiga proporcionava muitas possibilidades: encontros.
“Eu não tenho saudade do tempo, pois eu vivi essa época  com o máximo da minha essência. Éramos apaixonados pela nossa escola de samba, pelo nosso time de futebol, pelos nossos bailes e passeios pelas cidades, sempre em grupo, sempre juntos. Existia um respeito e uma responsabilidade mútua. Um cuidava do outro. Isso eu sinto falta nos dias de hoje. E não é porque a cidade mudou, mas sim as pessoas e seus hábitos.”

Márcia Nicolau

Um comentário:

  1. Fantástico!!! Suas lembranças juntam-se às minhas e fizeram-me ver o quanto nós fomos felizes em viver essa década tão simples e tão cheia de riquezas. Sua história só se difere da minha, quanto ao local de sua residência. Nasci e fui criada no barro das Perdizes, zona oeste da capital de SP. Tudo o que você narrou sobre às amizades e paqueras, eu também vivi. Era lindo aquele tempo.. Concordo, quando você diz que: " E não é porque a cidade mudou, mas sim as pessoas e seus hábitos.”
    Adorei ler e conhecer um pouco de sua linda alma. Bjs
    Marilena Orsoni.

    ResponderExcluir