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sábado, 17 de março de 2012

1x03 - Parece bicho, mas é madeira!


Montagem com foto de Márcia Nicolau
 “As histórias do meu povo ficaram esquecidas para sempre?” Essa era uma pergunta que o menino Ditinho sempre fazia.  Com uma perspicácia além da conta, ele observava a mudança dos costumes e tradições ao seu redor. Ele sempre pensava em como deixar esse registro para seus filhos e netos, pois os meios eram precários, fotos, rádios e jornais. Mas eles raramente se interessavam pelas histórias dos homens da terra. A melhor forma encontrada por ele era a arte, então inventava as estórias, cantava, ensinava as demais crianças a também cantar e mantinha sempre sua atenção a todos os movimentos ao seu redor.
Até que um dia, lá na roça ele se deparou com um pedaço de madeira que mudaria completamente a sua vida. “Olha só, esse galho possui figuras de animais.” Ele conseguiu enxergar ali, uma cabeça de girafa, uma de macaco, um leão. E por alguns minutos acreditou estar louco, ou enxergando coisas onde não devia. “Será que eu enlouqueci?”- questionou-se.

A descoberta foi compartilhada com sua mãe, que acalmou o coração do menino dizendo que realmente ali havia expressões de animais, que ele não estava louco e sim, existiam ali esculturas esculpidas pela natureza. “Na natureza nada se cria, tudo se transforma” lembrou Ditinho de uma famosa frase que ouvira na escola. ”Tudo se transforma!
Montagem com foto de Márcia Nicolau
E o que realmente se transformou foi sua vida, que a partir daquele dia passou a ser preenchida com uma grande decisão: dar vida a troncos mortos por meio da lapidação de suas formas e fazer delas o retrato da história do seu povo. Sem pretensão de fama, sem pretensão de reconhecimento. Mas a questão que tanto lhe incomodava, agora tinha uma direção. Ele sabia que era ousadia de sua parte, mas não se importou e com um pequeno canivete começou a moldar seu sonho na madeira.
E de lascas em lascas, foi moldando imagens e como todo iniciante ficava desanimado com os seus resultados, mas sempre tinha a presença da mãe para confortá-lo e incentivá-lo a nunca desistir. “Tem uma imagem que ainda não reproduzi, mas é a da minha mãe com uma pequena lanterna me ajudando a noite nas esculturas. No fim de cada noite eu ganhava um abraço que me confortava totalmente. Como um carinho de mãe motiva qualquer filho a seguir em frente.”
E o menino, sozinho, foi se aperfeiçoando e recontando suas histórias na madeira. Nasceram as primeiras obras, ainda simplórias, mas encantadoras. Elas reproduziam sentimentos e transformavam-se em cenários para os “causos” de Ditinho.

Márcia Nicolau

Um comentário:

  1. Márcia... li esta estória, e lembrei que minha vó também inventava estorias pra mim e pro meu irmão Lukinha todo dia, ela sempre falava que tinha acontecido lá no Paraná...rsrsrs

    JOAO PEDRO DIOGENES

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